50 coisas para fazer quando você gira 50 livro

[Encontro Miojo] Aceito uma Mãozinha (5º Level; D&D 5e)

2020.07.29 01:05 AdsonLeo [Encontro Miojo] Aceito uma Mãozinha (5º Level; D&D 5e)

Olá pessoal, postando aqui um encontro que já vinha querendo colocar no papel há um tempo. Faz parte da ideia de "Encontro Miojo", rápido para ler e colocar em jogo mas com potencial para se desenvolver em algo maior, como o nosso bom macarrão instantâneo. O mais importante é dar um pontapé em suas aventuras e alguns ganchos com o que trabalhar quando estiver em dúvida ou com preguiça.
Isso faz parte de um blog que atualizo nunca. Mas às vezes aparece algo lá e decido postar aqui. Espero que gostem e a quem interessar o blog é o Sopa de Dado e a postagem desta aventura é essa aqui.
Neste encontro busquei trazer desafio a aventureiros chegando em leveis medianos, sendo um combate desafiador mas também com um tom humorístico e leve. É possível até que não haja derramamento de sangue no fim e tudo se resolva com simples interações sociais e resultados finais interessantes para ambos os lados - heróis e vilões. Admito que talvez não seja toda mesa que acomode o "good ending" afinal, como verão, envolve lidar pacifica e amigavelmente com vilões óbvios.
De toda forma, este encontro é pensado para impor um desafio considerável para um grupo de quatro aventureiros no nível 5. Nomes em negrito se referem a criaturas encontradas em material de D&D 5ª edição e serão seguidos por uma notação entre parênteses com o nome do livro e página em que se encontram.
Como sempre com aventuras prontas use como bem entender, mas tendo em mente que ao corrê-la para grupos maiores ou menores e em níveis diferentes o desafio pode ficar significativamente mais fácil ou difícil. Se decidir utilizar este encontro ou elementos dele peço apenas para que dê crédito ao blog e ao autor, no caso eu.

Ganchos de Aventura

Nosso grupo de aventureiros se encontra viajando do ponto A ao ponto B, seguindo rio acima pela margem quando avistam algo curioso. Ou tenha ouvido rumores sobre uma velha torre abandonada que todos os moradores locais evitam, já que quem foi lá jamais voltou e luzes e sons macabros se projetam do topo. Talvez esses mesmos moradores ofereceram recompensas para que os destemidos heróis visitem o local e verifiquem a veracidade da história, eliminando qualquer ameaça presente. Seja como for, subindo o rio eles se deparam com um... pacato pescador?

Localização

Este encontro pode se resolver em duas localidades: à beira do rio ou na torre abandonada. O rio... é um rio. Cortando uma floresta provavelmente, como todo rio em RPG. Não existe segredo, pode ser qualquer rio em qualquer mundo onde você goste de mestrar. Gosto da ideia de locálizá-lo no rio Styx em Avernus caso esteja correndo a campanha Baldur's Gate: Descent Into Avernus ou algo assim. Sendo um plano mal onde o grupo interage constantemente com figuras de caráter duvidoso os aventureiros estarão mais acostumados a interagir com o que antes eram apenas inimigos com alvos pintados na cabeça. O importante mesmo é que os aventureiros estejam seguindo contra o curso deste rio.
A torre fica ainda mais rio acima, e, sinceramente, não é o foco desta aventura. Use o layout de qualquer torre, ou qualquer construção na verdade. Uma torre funciona melhor mas no final fica a seu critério. Caso tenha interesse poderá desenvolver com mais detalhes, mas para o propósito deste encontro miojo não tem muita importância. O que interessa é o que os aventureiros avistam enquanto caminham.

1. Pescaria Macabra

À beira do rio, poucos metros a frente após passarem por algumas árvores, o grupo avista uma figura sentada com uma vara de pesca em mãos e olhando distraidamente para o nada. O ser humanoide parece um pouco desengonçado e, numa inspeção mais atenta ou próxima, é possível notar que não se trata de um humanoide normal, e sim de um Flesh Golem (Monster Manual, 169). Vestindo um chapéu de palha que por pouco não é levado pelo vento, ele lança olhares ocasionais para a água. A linha da sua vara de pesca está sempre em movimento e bastante tencionada, porém ele não a puxa.
Caso os jogadores observem por mais tempo ou demorem a tomar uma decisão, eles notam que a linha fica mais frouxa até que da água emerge uma Flameskull (MM, 134). De início apenas uma caveira humana flutuante, ela gira algumas vezes no ar para se secar e logo explode em eletricidade, que fica estalando ao seu redor. Use os status e habilidades da Flameskull, porém substitua a magia preparada "Fireball" por "Lightning Bolt", ambas de terceiro nível.
O crânio pertence a Ginolvam Tyerulzo, mago humano de índole no mínimo questionável há muito morto por outros aventureiros. Cursou artes mágicas em [insira grande cidade do cenário] mas jamais conseguiu seguir as linhas de pesquisa monótonas dos outros, o que o levou à reanimação. Graças a rituais diversos executados meio que corretamente por ele quando vivo, o mago conseguiu voltar a vida. De certa forma. Apenas sua cabeça animada e ossuda se reanimou e, desde então, ele habita sua torre, onde continua seus experimentos em constructos feitos com partes de criaturas vivas.
A dita torre foi recentemente atacada por heróis, ou como ele chama, "um bando de rufiões metidos a salvadores da pátria". Os tais rufiões dizimaram sua coleção de golens e o mataram. De novo. Após uma hora ele despertou, apenas para descobrir que tudo de valor que ele possuía havia sido roubado pelos malditos e que seus brinquedos foram despedaçados e boa parte de seus pedaços lançados no rio próximo. Quanta barbárie. Após muito esforço Ginolvam reconstruiu um dos golems com o que pôde achar e se colocou a busca do restante das partes que foram levadas rio abaixo. Com medo de que pudesse se distrair e ficar perdido, ou até mesmo arrastado pela correnteza, agora confia que #1B segure firme enquanto ele vasculha as pedras e a lama do fundo em busca das peças que precisa para reestabelecer seu exército.
Ginolvam já aparece em cena com um braço, perna ou outro membro de sua preferência, sendo erguido por uma Mão Mágica conjurada por ele, e o joga numa pilha que já contem algo como meia dúzia de outros. Ele então fala em tom autoritário com o golem por alguns momentos, informando que irá forçar um pouco mais pois acredita ter avistado um tronco preso à vegetação.Neste momento, caso os personagens não tenham se escondido ou a furtividade seja menor que 12 (Percepção passiva da Flameskull), Ginolvam os nota e se dirige a eles, perguntando com confiança o que buscam, ao mesmo tempo em que #1B se coloca de pé. Caso os aventureiros se aproximem ou enderecem-no amistosamente, ambas as partes podem conversar de forma tranquila.
Durante o diálogo Ginolvam se mostra autoritário e confiante porém certamente disposto a evitar um combate, uma vez que a reconstrução de um único golem sem ajuda e quando se é apenas um crânio flutuante com Mãos Mágicas é um tarefa hercúlea. Sem contar que dessa vez, pensa ele, talvez esses sejam um pouco mais espertos e de fato o matem de uma vez por todas. Nesta solução pacífica desenrole o encontro como social, e o grupo fica a par da história do mago, sua morte, experimentos, torre, o ataque e morte de novo. Ele também faz questão de frisar que jamais fez mal às comunidades próximas ou ativamente atacou viajantes, mas que se defende caso necessário. Tem interesse apenas em seus experimentos, que são os causadores dos sons e luzes que as pessoas veem de tempos em tempos. Um personagem pode verificar que Ginolvam diz a verdade com um teste de Sabedoria (Insight) de CD 10. Com alguns minutos de conversa civilizada o mago arrisca pedir ajuda do grupo.
Talvez os aventureiros apenas sigam viagem com uma história curiosa para contar. Se ajudarem a caveira a encontrar mais partes e levá-las para a torre siga para a parte 2. Caso mesmo após a conversa eles decidam que é melhor dar cabo da caveira e seu amigo golem e engajem em combate siga para o próximo parágrafo.
Numa inevitável luta execute da seguinte forma. Ginolvam ordena #1B a lutar com todas as forças e protegê-lo, assim que chegar seu turno, voa a 9m do chão, de onde atira seus Fire Ray e Magic Missiles, e ambos focam aqueles indivíduos que podem efetivamente ferir a caveira. Em seu primeiro turno ele conjura a magia Blur em si mesmo para aumentar sua sobrevivência, assim como Shield quando necessário. O mago é relutante em conjurar seu trunfo, Lightning Bolt, logo de cara, ainda mais caso a quantidade de alvos que consiga atingir seja sub-ótima. Ele o fará caso veja que esses novos rufiões que o atacaram sem motivo sejam muito fortes e estejam dando trabalho a ele e ao #1B. Se uma oportunidade de ouro se apresentar, com todos os aventureiros em linha perfeita esperando pelo choque ele conjura de uma vez o raio elétrico. A função do Golem não é segredo: ficar no solo absorvendo o máximo de dano que conseguir e batendo de volta. Caso entre em Berserker, Ginolvam não tentará domá-lo a menos que a luta já esteja ganha ou os aventureiros implorem muito por misericórdia. Se tudo der certo ele estará uns bons metros no ar, longe dos ataques do seu constructo. Se o grupo todo cair faça como você achar melhor. Um TPK mesmo e mais corpos para o mago ou quem sabe nosso amigo cabeça possa prender os atacantes e conduzir mais experiências. Vilões megalomaníacos fazem isso e repetidamente dão a oportunidade dos capturados escaparem com vida... tsc tsc, nunca aprendem. Caso a luta pareça perdida Ginolvam tentará escapar voando para longe e acessar o que consegue recuperar depois.

2. Torre Abandonada

Se no final os aventureiros se resolveram amigavelmente com a dupla de pescadores e os ajudaram a trazer partes para cá, ou se venceram o combate e eventualmente alcançaram a estrutura, use algum mapa que achar interessante. Uma coisa é fato, está tudo saqueado. Algumas partes de golens são visíveis, mobílias intactas e quebradas, livros, frascos, mesas de encantamento, penduricalhos diversos e tudo o que magos em RPG costumam colecionar. Marcas de batalha são visíveis e recentes - perfurações, chamuscados, flechas e frascos de poção recém usadas pelo chão. Em duvida faça um mapa simples. Existe um ou dois quartos, uma cozinha e sala, um depósito e um laboratório provavelmente no topo. A torre é o formato ideal pois Ginolvam precisa atrair raios para alguns de seus experimentos. Infelizmente ele não tem poderes o suficiente para conjurar o seu próprio mais que uma vez ao dia.
O único butim de valor é o grimório da velha caveira. Um tomo grosso cuja capa é feita de retalhos de pele e com páginas amareladas que contém as magias conhecidas do mago (leia-se, as que a Flameskull tem preparada contando a alteração que fizemos). Um Mago pode copiar qualquer uma das magias descritas ou é possível vender o livro por 50 pesos de ouro caso encontrem comprador interessado.
Se todos chegaram aqui como amigos, Ginolvam convida o grupo a ficar e pede #1B para preparar algo para eles enquanto ele começa a montar o próximo golem. Talvez todos fiquem desconfiados e, mais uma vez, depende de você DM. Minha ideia de "good ending" é todos ficarem em bons termos, tomarem um chá e conversarem. Caso tenha um mago no grupo, e ele seja decentemente sociável, Ginolvam o acha merecedor de estudar o seu grimório e copiar uma das magias que tenha lá. Se achar necessário peça um teste de Charisma (Persuasion) para o conjurador da sua mesa e, se achar bom o suficiente, o deixe copiar mais que uma. Ginolvam se mostra amigável mas ainda é alguém meio difícil de lidar. Ao final de tudo, se realmente foi um momento extremamente prazeroso e os personagens se ofereçam para ajudar nas tarefas, como arrumar a bagunça e montar os golens, e passem a noite na torre, eles conquistam amigos fiéis em Ginolvam e #1B e o mago os presenteia com um Damaged Flesh Golem (Explorer's Guide to Wildemount, 248) feito de partes sobressalentes e cujo mestre e dono pode ser decidido pelo grupo ou pela própria caveira. Eles até podem ver o processo de animação com Lighting Bolt, em que todos os corpos montados são enfileirados e alvejados pela magia para ganharem vida própria e servirem seu mestre.
Mas quer saber? Talvez Ginolvam não é um cara tão legal. Neste caso ele pode atacar o grupo a qualquer momento em sua torre. Seja assim que chegarem, durante o chá ou com um exército de golens novos construídos pelas próprias vítimas MUAHAHAHA!!! Se assim for a tática é basicamente a mesma descrita no último parágrafo da parte 1, Ginolvam se protege e dá cobertura à distância enquanto o(s) golem(s) arrebenta(m) com os convidados.

O Que Vem Depois

Aqui repito o que adoro falar a todo momento: depende de você. Uma aventura é sua assim que decide corrê-la para seu grupo. Modifique como quiser e bem entender para que seja mais desafiadora, divertida, engraçada, curiosa, assustadora.
Gostou da aventura? Tem alguma crítica, elogio ou sugestão? Deixe um comentário! Se tiver usado alguma ideia apresentada no texto comente aí como foi, adorarei ler como tudo se deu na sua mesa. Até a próxima.
submitted by AdsonLeo to rpg_brasil [link] [comments]


2019.06.26 06:49 altovaliriano Como não foi: Game of Thrones e a Idade Média, Parte I

Texto original: https://bit.ly/2IXUlqM
Autor: @BretDevereaux (autodescrito como "Historiador de História antiga, especializado em economia e vida militar romana")

O número de vezes que fãs entusiastas me disseram que Game of Thrones era superior a outras obras de fantasia porque mostrava que uma sociedade medieval "como realmente era" ou "mais realisticamente" está além da contagem. Às vezes, esse louvor está simplesmente exacerbado em relação ao "passado" como se a experiência humana fosse um binário entre "o agora" (quando as coisas são boas) e "o passado" (quando as coisas eram uniformemente ruins). Arguir que Game of Thrones é mais fiel à "verdadeira" Idade Média é fazer uma afirmação não apenas sobre Game of Thrones, mas também sobre a natureza da Idade Média em si. E essa afirmação merece ser avaliada.
Isso é parte do porque eu optei por olhar principalmente para o show, Game of Thrones e não a série de livros, A Song of Ice and Fire. O show - alcançando muitos milhões de pessoas e sendo muito mais culturalmente difundido - terá um impacto muito maior sobre a percepção pública do passado. Além disso, para ser honesto, a "defesa da historicidade" repetidamente feita para o show parece menos comum do que a defesa dos livros (talvez, em parte, porque os fãs de livros parecem sentir que os livros precisam de menos defesa).
Devemos também definir a Idade Média européia para fins desta comparação. A Idade Média na Europa se estende aproximadamente de 500 dC a 1450 dC, um período de quase 1.000 anos. Compreensivelmente, existe grande diferença entre o que se entendia por guerra e sociedade em 550 e em 1350. Mas os símbolos de Game of Thrones são muito mais específicos: os cavaleiros vestidos com placas, damas refinadas, torneios marciais que evocam a Alta (cerca de 1000-1250 dC) e Baixa (cerca de 1250-1450 dC) Idade Média, então esse é o período com o qual principalmente faremos comparação.
Por fim, antes de mergulharmos, duas advertências finais. Primeiro, isso não é uma crítica à construção do mundo de George R. R. Martin. Não há, afinal de contas, nenhuma razão para que o mundo de fantasia dele precise ser fiel à Idade Média européia (falaremos sobre inspirações históricas conhecidas/possíveis à medida que surgirem). Não creio que Martin tenha planejado elaborar uma dissertação de cultura medieval em forma de romance de fantasia, de modo que ele não pode ser culpado por falhar em fazer o que nunca tentou. Em segundo lugar, essa análise vai se basear mais no show do que dos livros, simplesmente porque o show está completo e é mais fácil discutir uma coisa completa - dito isso, elementos de lore que não entraram no show (mas que ainda são ilustrativos) podem surgir.
Tudo bem? Vamos mergulhar.

Destrutividade

Uma coisa sobre a qual Game of Thrones é muito clara é quão brutalmente destrutivas são as guerras de Westeros. A roda - "e assim gira, esmagando os que estão no chão" (S5E8) - quase acaba totalmente com a sociedade Westerosi. A Guerra dos Cinco Reis interrompe as condições de fornecimento de alimentos a ponto de causar fome e miséria nas Terras da Coroa e tumultos sangrentos em Porto Real (S2E6). A própria Porto Real viria a ser essencialmente destruída durante a captura por Daenerys (S8E5), provavelmente com centenas de milhares de baixas, levando em consideração a escala da destruição e o tamanho conhecido da cidade (porém falarei mais sobre isso depois).
Mas quão destrutiva é essa roda, de verdade? Podemos mensurar em números? Nem o programa nem os livros fornecem uma métrica clara para avaliar as perdas de guerra, mas considerando-se a queima de Porto Real e as repetidas menções a fome, não podem ser inferiores a várias centenas de milhares apenas em vidas civis (e possivelmente muito mais altas se incluirmos mortes da praticamente certa indigência do inverno). A esta conta devem ser acrescidos o Norte e as Terras Fluviais, que experimentaram contínua devastação e ocupação.
E quanto às perdas militares? Os exércitos da Casa Tyrell, Lannister e Baratheon foram todos destruídos em campo - vamos olhar para questões de escala em um instante - mas, por enquanto, se metade de sua força fosse de baixas, poderíamos estimar cerca de 80.000 perdas para essas Casas. As perdas para as Terras Fluviais, o Norte, Dorne, as Terras da Coroa e as Ilhas de Ferro são menos claras, mas poderíamos supor que elas equivalem aproximadamente ao total imaginado. Ao que devem então ser acrescidas as forças de Daenerys, reduzidas pela metade em Winterfell com a perda de cerca de 4.000 Imaculados e 30.000 Dothraki (nos dizem que ela perdeu "metade" de ambos).
Com base em toda essa especulação, poderíamos estimar um número mínimo de perdas nas guerras como sendo de mais de 300.000 civis e cerca de 200.000 combatentes (não incluindo perdas sofridas em Essos). Se a fome generalizada for contabilizada - e quase certamente deveria ser, considerando-se o inverno que se aproxima - o número real seria muito maior, talvez bem mais de um milhão. E deixamos de fora a destruição quase total dos Selvagens, as mortes deixada pelo exército dos mortos enquanto se deslocavam para o sul, e pelos assaltos dos Homens de Ferro. A isso seria preciso acrescentar baixas excedentes por doenças, que são mais graves do que as perdas no campo de batalha - o provável número total de vítimas poderia, assim, facilmente se aproximar de 2.000.000 ou mais.
A guerra em Game of Thrones é, portanto, não apenas endêmica, mas também chocantemente destrutiva. É importante ressaltar que a guerra em Westeros chega ao nível de significância demográfica - essa guerra é suficiente para causar uma diminuição real e perceptível na população total de Westeros (os livros não fornecem nenhuma ferramenta para estimar o tamanho da população de Westeros, mas uma estimativa de 40 milhões é perfeitamente razoável - o que significa que a guerra matou algo entre 2,5% e 5% de toda a população, em apenas alguns anos). Este é um nível de morte que os futuros arqueólogos e historiadores westerosis, escavando aldeias e lendo registros da cidade, serão capazes de identificar através da perda acentuada de população. Guerras tão destrutivas foram raras no período pré-moderno - a maioria das guerras não é "demograficamente visível" a esse ponto, porque as perdas de guerra se perdem no "ruído" dos nascimentos e mortes normais.
Apesar de que a guerra na Idade Média era frequente, geralmente não era destrutiva. Estimar a destrutividade e a escala da morte nas guerras medievais é quase impossível de ser feito com precisão devido à natureza das fontes. Mas algumas comparações podem ser feitas. A estimativa padrão para a perda de vidas devido às Cruzadas é de 1 a 3 milhões, o que significa que a Guerra dos Cinco Reis foi, em três ou quatro anos, aproximadamente tão letal quanto duzentos anos (1091-1291) da guerra religiosa medieval no Oriente Próximo. Alternadamente, acredita-se que a Cruzada Albigense - um esforço na França para suprimir a heresia "cátara" - tenha matado algo entre 200.000 e 800.000 pessoas; o cerne da violência durou vinte anos (1209-1229), mas o número de mortos tipicamente também inclui décadas de expedições da Inquisição que só foram terminadas em 1350, um século e meio após o início da cruzada. É importante notar que essas guerras - que ainda estão longe da escala e da intensidade da guerra em Westeros - foram guerras religiosas, onde as normas que impediam a violência contra civis eram muito mais fracas.
A maioria das guerras não eram guerras religiosas, e estas tendiam a ser significativamente menos destrutivas, especialmente para os camponeses que compunham a grande maioria da população. Em parte, isso se devia simplesmente a bom senso: em uma guerra territorial, o controle sobre o campesinato e sua produção agrícola era o objetivo, então assassinar massivamente o campesinato tinha pouca serventia. As guerras entre Senhores poderiam assim muitas vezes ocorrer "acima das cabeças" do campesinato (embora o perigo invasão ou de ter comida roubada para uso pelos exércitos permanecesse agudo - nós não devemos minimizar o quão difícil essas guerras poderiam ser para as pessoas "no chão").
Outro fator foi um conjunto de normas sociais. Apesar de que a Idade Média tenha sido um período de frequentes (pequenas) guerras, nela também se viu alguns dos primeiros esforços para reduzir a violência em sentido amplo, originados pela Igreja Católica: os movimentos de Paz de Deus e Trégua de Deus. A Paz de Deus (do séc. X-XI) deu proteção religiosa ao campesinato e ao clero (e mulheres e viúvas) enquanto não-combatentes. A Igreja encorajou cavaleiros e senhores a fazer juramentos no sentido de que eles não violariam a paz atacando o campesinato.
Isso não quer dizer que essa proibição sempre era seguida - na prática, parece ter sido em grande cumprida via de exceção. Mas é um claro contraste com a guerra em Westeros, onde atacar a população civil é claramente normal - Tywin não hesita em “colocar as Terras Fluviais em chamas desde o Olho de Deus até o Ramo Vermelho” (S1E10) e nenhum dos seus estandartes questiona a ordem. O esforço de Cersei na 8ª Temporada para impedir o ataque de Daenerys por meio da concentração de civis só é posto em ação porque ela acha que Daenerys é diferente de um senhor normal - os quais provavelmente ignorariam o obstáculo.
Nesse sentido, a guerra em Westeros é menos parecida com a guerra na Idade Média - onde, observada ou não, havia um senso geral de que alguns indivíduos eram "civis" e, portanto, não eram alvos militares válidos - e mais como guerra na Antiguidade. Para os romanos, por exemplo, as guerras eram geralmente contra os povos - os romanos falariam sobre estar em guerra com os cartagineses (todos eles) ou com os celtiberos (todos eles) ou os helvécios (todos eles). A única exceção são as monarquias helenistas do Oriente, que eram as posses pessoais das famílias reais, em vez de grandes grupos étnicos - ali os romanos foram à guerra com monarcas individuais. Mas essa foi a exceção, e não a regra.
Nesse contexto, onde os romanos estão em guerra com todo um povo, todo o povo se tornou alvos militares válidos. E os romanos se comportavam como tal. Políbio descreve o processo romano para saquear uma cidade - “Quando Cipião pensou que um número suficiente de tropas tinha entrado [na cidade] ele enviou a maioria deles, segundo o costume romano, contra os habitantes da cidade com o fim de matar todos que eles encontrassem, poupando nenhum, e começassem a pilhagem até que o sinal fosse dado ... muitas vezes pode-se ver não apenas os cadáveres dos seres humanos, mas os cães cortados ao meio e os membros desmembrados de outros animais ... ” (Políbio 10.15.4-5; grifei). Tal massacre não era visto como fora das regras da guerra, mas sim uma consequência normal de tentar resistir a um exército sitiante. Uma cidade que quisesse evitar o massacre deveria se render antes que o cerco começasse pra valer (o último momento para se render, sob as regras romanas de guerra, era antes que o primeiro aríete tocasse a muralha da cidade).
É verdade que, em certas ocasiões, o mesmo tipo de matança indiscriminada ocorreu na Idade Média, quase sempre no contexto de guerras religiosas (onde, por que os inimigos eram hereges ou infiéis, as restrições religiosas à violência não se impunham), mas mesmo isso é tipicamente apresentado pelas fontes como incomum e chocante. A captura de Jerusalém durante a Primeira Cruzada (1099) é o exemplo típico de acentuada brutalidade medieval - os cruzados massacraram grande parte da população da cidade em uma terrível onda de derramamento de sangue.
Raymond d'Aguliers, uma testemunha ocular, diz assim do massacre: "se eu disser a verdade, excederá seu poder de crença" (transcrição de A. C. Krey, The First Crusade: The Accounts of Eye-Witnesses apud Edward Peters, The First Crusade: The Chronicle of Fulcher of Chartes and Other Source Materials) - ainda que tal massacre tivesse sido normal e indigno de nota no mundo romano - e, aparentemente, em Westeros. O que era excepcional em 1099 dC era normal em 199 aC - ou em Porto Real.
É claro, há outra razão pela qual as guerras medievais tendiam a ser muito menos destrutivas - os governantes medievais simplesmente não tinham a capacidade - na administração, infraestrutura e recursos - para causar tantos danos. O que nos leva a:

Escala na Guerra

A guerra na Europa medieval era geralmente um assunto relativamente pequeno. Enquanto muita atenção é dada às guerras entre os reis - a Guerra dos Cem Anos, a Guerra das Rosas, etc. - a grande maioria dos conflitos era pequeno, entre senhores regionais com propriedades limitadas. Esse tipo de guerra envolvia muitas vezes "exércitos" de apenas dezenas ou centenas de homens. No passado, tive alunos que liam trechos das muitas queixas de Hugh V de Lusignan (que datam de 1028). Hugh está perpetuamente em conflito militar com seus vizinhos, mas a escala de tais conflitos é pequena - ele leva apenas 43 cavaleiros para tentar ganhar um castelo e algumas terras, por exemplo (o que ainda era uma força grande o suficiente que o seu Senhor, o conde de Aquitânia, estivesse ciente de que ele a tivesse levado e ordena que ele retorne à corte). O mesmo tipo de guerra de pequena escala povoa as "canções de gesta" (francês: Chasons de Geste), como o de Raoul de Cambrai, onde Raoul passa o poema tentando recuperar o feudo de Vermandois (a canção de gesta de Raoul também se relaciona com o ponto anterior sobre normas de guerra: Raoul quebra a Paz de Deus atacando um convento, que faz com que seu melhor cavaleiro, Bernier, se posicione contra ele; Bernier então mata Raoul em batalha, levando a uma briga de sangue entre as famílias. Note como a transgressão da proteção religiosa devida aos não-combatentes leva à morte dos protagonistas e uma fissura permanente na comunidade - a moral é clara: não ataque os não-combatentes).
Em comparação, os exércitos de Westeros são enormes. Acreditando-se na Wiki of Ice and Fire, podemos estimar os exércitos de campanha - não incluindo guarnições e outras forças pequenas - de cada um dos principais atores como sendo de aproximadamente:

O Norte: 20-30.000 (mas lento para reunir; poder nocional 45.000)
Ilhas de Ferro: 20.000
Terras Fluviais: cerca de 20.000 (poder nocional 45.000, mas politicamente dividido)
Vale de Arryn: Aproximadamente igual ao Norte ou Dorne (cerca de 45.000, no nocional)
Terras Ocidentais: 35.000 no campo durante guerra (nocional: 55.000)
Terras da Coroa: 10.000 a 15.000
Terras de Tempestade: cerca de 30.000
Campina: 80.000-100.000 partiram com Renly (!!)
Dorne: estima-se que cerca de 50.000 estariam à disposição dos Martells

Em comparação, o exército francês em Azincourt (1415) não era maior do que talvez 35.000 homens (alguns historiadores argumentam que era significativamente menor), mas sua derrota foi suficiente para aleijar a França (sugerindo que o exército representava a maior parte das forças de campanha à disposição do rei da França na época). A força de campanha inglesa era menor - apenas cerca de 9.000. Azincourt não era uma pequena escaramuça: eram exércitos reais que representavam o melhor que seus reis podiam fazer (Henrique V, rei da Inglaterra, estava com seu exército, de fato). Nem esses tamanhos típicos eram restritos à Inglaterra e à França. A Batalha de Nicópolis (1396) foi entre os otomanos de um lado e uma grande aliança de poderes cristãos do outro, e provavelmente não envolveu mais do que 40.000 homens de ambos os lados (ou seja, dois exércitos de cerca de 20 mil), apesar do fato de que a batalha estava entre os bem organizados otomanos de um lado e mais de uma dúzia de potências européias do outro.
Em comparação, os exércitos de Westeros são enormes - e os números acima não incluem as várias frotas de centenas de navios que muitos senhores mantêm. Renly Baratheon sozinho tem uma coluna em campo de 100.000 homens; Mace Tyrell depois marcha para Porto Real com 70.000 soldados Tyrell. Em comparação, em 1527 - bem no início do período moderno (onde o tamanho do exército salta acentuadamente) - todo o exército otomano consistia de 18.000 soldados regulares e 90.000 timariots (grupo étnico da Turquia convocados para lutar em campanhas específicas, de modo similar a cavaleiros e seus seguidores). Os otomanos estavam muito melhor organizados do que qualquer poder europeu medieval (daí a exigência de que a oposição à expansão otomana requeresse grandes alianças - veja acima). E todas essas tropas otomanas absolutamente não poderiam ser mantidas em um só lugar, como Renly faz com sua coluna.
Não adianta ressaltar que Westeros cobre uma área enorme, porque isso simplesmente introduz novos problemas: a logística de exércitos tão grandes provavelmente está além da capacidade da maioria dos governantes europeus medievais. Mesmo os romanos - cuja capacidade logística excedia significativamente a do período medieval - raramente reuniram exércitos tão grandes quanto os de Renly ou o de Mace Tyrell e apenas por curtos períodos. Tibério (na condição de general sob o imperador Augusto) reuniu um exército de cerca de 100.000 para lidar com uma revolta em Illyricum (região que atualmente corresponde à Albânia, Bósnia, partes da Croácia e Eslovênia) - o exército foi suficiente para levar a província à fome em um único ano (o que parece ter sido, de fato, o objetivo de Tibério - suprimir a revolta negando suprimentos) e nunca se afastou dos rios (por meio dos quais poderiam chegar suprimento de regiões distantes).
O exército de Mace Tyrell teria que ter marchado pela Estrada da Rosa por cerca de 850 milhas para chegar a Porto Real. Ele provavelmente não se moveu mais rápido do que 10 milhas por dia, então esteve em marcha por 85 dias (decore esse número - nós voltaremos a ele). 80.000 homens, juntamente com animais de carga em um trem de carga bastante enxuto - eram cerca de 20 mil mulas (sim, um trem de bagagem bastante enxuto para um exército deste tamanho!) - consumiriam cerca de 189 toneladas de alimentos por dia. O exército deve ser capaz de carregar cerca de 20 dias com ele (supondo que as mulas estão puxando muitos vagões grandes e lentos) e é grande demais para se abastecer simplesmente pilhando os camponeses locais enquanto ele se move. Isso significa que os Tyrell terão que preparar estoques de alimentos em pontos-chave ao longo de toda a Roseroad. Quanta comida? Supondo que o exército parta de Highgarden totalmente suprido (isso parece improvável), seriam 12.285 toneladas . E isso sem conta a comida dos cavalos.
Nenhum rei medieval tinha acesso a esses tipos de recursos, nem ao tipo de administração que poderia obter quantidades tão grandes de suprimentos. O Império Romano poderia fazer isso - mas exigia o envolvimento de funcionários do Tesouro, magistrados locais e um sistema de suprimento pronto (que era mantido por um grande exército permanente de soldados profissionais). O que leva a:

Montagem de exército, para leigos

Lembra-se daquele número de 85 dias? Voltaremos logo a ele. Em breve. Eu prometo.
A frase que enfio na cabeça dos meus alunos sobre a estrutura dos exércitos medievais é que eles são uma comitiva de comitivas. O que quero dizer com isso é que o modo como um rei medieval forma seus exércitos é que ele tem um bando de aristocratas militares (leia-se: nobres) que lhe devem o serviço militar (eles são seus "vassalos") - sua comitiva. Quando ele vai para a guerra, o rei pede que todos os seus vassalos apareçam. Mas cada um desses vassalos também tem seu próprio bando de aristocratas militares que são seus vassalos - sua comitiva. E isso se repete, até chegar a um cavaleiro individual, que provavelmente tem um punhado de não-nobres como sua comitiva (talvez alguns de seus camponeses, ou talvez ele tenha contratado um ou dois mercenários para segui-lo).
Se você quiser ler uma visão realmente detalhada (e bastante seca) de como isso funcionou, dê uma olhada em The English Aristocracy at War (2008), de David Simpkin; ele vasculhou registros ingleses sobreviventes de cerca de 1272 a 1314 e analisa (entre outras coisas) o tamanho médio das comitivas. A comitiva média encontrada foi de cinco homens, embora senhores importantes (como os condes) pudessem ter centenas de homens em suas comitivas (que, por sua vez, eram compostas pelas comitivas de seus próprios seguidores). Assim, a comitiva do nobre é a comitiva combinado de todos os seus servires, e o exército do rei é o total combinado dos seguidores dos seguidores de todos, se isso fizer sentido. Assim: uma comitiva de comitivas.
Esse é exatamente o sistema segundo o qual o Game of Thrones afirma que seus exércitos funcionam. Os grandes senhores - pessoas como Tywin Lannister - "convocam seus estandartes" e seus bannermen - o termo Westerosi para vassalos (e presumivelmente uma versão direta do que era chamado historicamente de "cavaleiro banneret" \ou cavaleiro-abandeirado])) - a forma mais baixa de aristocrata que teria sua própria bandeira e, portanto, sua própria unidade militar) aparecem com suas próprias comitivas, exatamente como acima. E, à primeira vista, isso parece bastante medieval - foi assim que os exércitos medievais da Alta e da Baixa Idade Média eram formados (principalmente). O problema é que os exércitos em Westeros nunca parecem funcionar dentro das restrições desse sistema .
Primeiro, o óbvio: este sistema, onde os exércitos são montados com base em relacionamentos pessoais e onde as unidades menores são geralmente muito pequenas, simplesmente não têm a capacidade de aumentar de escala para sempre. Há apenas alguns seguidores com que um rei pode manter um relacionamento pessoal - e assim vai fila abaixo.
Em segundo lugar, esses seguidores não "seguiam" servindo para sempre. Eles são obrigados a um certo número de dias de serviço militar por ano. Especificamente, o número padrão - que vem do estabelecido por Guilherme, o Conquistador, para seus vassalos depois de tomar o trono inglês - era de 40 dias. O ponto principal deste sistema é que o rei dá aos seus vassalos a terra e eles lhe dão serviço militar para que ninguém tenha que pagar nada a ninguém, porque os reis medievais não têm a receita requerida para manter exércitos permanentes de longo prazo. Não é por acaso que os conflitos medievais mais destrutivos foram as guerras religiosas em que os guerreiros participantes estavam essencialmente engajados em uma "peregrinação armada" e assim poderiam permanecer no campo por mais tempo (tendo Deus um direito maior ao tempo do cavaleiro do que o rei).
Finalmente, imagine organizar os suprimentos de um exército como este. Cada unidade de comitiva tem um tamanho diferente: Lorde Tarly pode ter algumas centenas de homens, Lorde Risley, algumas dúzias, Lorde Hastwyck apareceu apenas com sua guarda doméstica de cinco e assim por diante (por dezenas e dezenas de comitivas). Você - o intendente do rei - não sabe quão grande são cada um destas comitivas, mas você deve racionar e distribuir comida para que não fique em uma posição onde uma comitiva morra de fome enquanto os outros tenha em excesso. Você também precisa coordenar o trem de bagagem de comida sobrando... mas é claro que a maioria dos vagões e animais de carga pertence a todos os senhores menores com suas pequenas comitivas. Você começa a ver o problema: suprimento centralizado - necessário para manter um grande exército alimentado - é praticamente impossível.
[Se você quiser ler sobre as dificuldades de manter um exército da Idade Moderna (com suprimento e logística um pouco mais centralizados) unido por longas distâncias, pense em ler The Army of Flanders and the Spanish Road , de Geoffrey Parker, e tenha em mente que, em seu apogeu, o exército que ele descreve (com os desafios intransponíveis de pagá-lo e supri-lo) nunca foi maior do que 90.000 homens - menor do que a coluna de Renly Baratheon - e tendia a ser, em média, um pouco menor de 60.000].

Que tipo de exército é esse?

Então, para resumir o que nós cobrimos até agora: a guerra em Westeros não é realmente muito medieval. Enquanto nos dizem que os exércitos estão organizados em linhas medievais, eles são muito grandes e as guerras que eles empreendem são muito mais destrutivas do que o normal para conflitos políticos (leia-se: não-religiosos) da Idade Média. Além disso, eles parecem não ser limitados pelas normas culturais da Idade Média (como a Paz de Deus), ou pelos limites logísticos comuns aos (mal organizados) exércitos medievais.
Há algum tempo na história européia em que esses exércitos se encaixariam melhor?
Acho que a resposta para isso é "sim" - esses exércitos não são medievais, mas da Idade Moderna em seu tamanho, capacidade e destrutividade.
Várias coisas colocam o período moderno à parte da Idade Média, mas o que mais nos interessa aqui é a capacidade do Estado. O que quero dizer com isso é a aptidão do estado (leia-se: o rei) de extrair receita e usar essa receita para fazer coisas (mobilizar forças militares, reformar a sociedade, contratar burocratas para extrair mais receita, etc.). Os reis medievais tinham uma capacidade estatal muito limitada, porque seus próprios nobres - os quais (ver acima) tinham seus próprios exércitos - trabalhavam para limitar o poder do monarca central. Em contraste, o período moderno (cerca de 1450-1789) é de crescente capacidade do Estado, à medida que os monarcas começam a centralizar agressivamente a governança de seu país.
Mudanças na natureza dos exércitos é tanto uma causa quanto um efeito disso. O poder real centralizado permitiu que exércitos maiores, mais padronizados e mais profissionais aumentassem as receitas reais fora do controle da nobreza - que eram, por sua vez, mecanismos eficientes para a supressão da nobreza e, assim, maior centralização de poder (eu deveria anotar: o conhecimento sobre os mecanismos exatos pelos quais isso acontece é volumoso e contestado - esta é apenas uma descrição geral do fenômeno; ch7 de Waging War de Wayne Lee (2016) é na verdade uma introdução bastante acessível ao leigo à história e ao debate se você quiserem).
Como já observei em outro lugar, a linguagem visual usada por Game of Thrones para todos os exércitos de Westeros, exceto para os do norte, é tirada do início do período moderno. Esses exércitos têm equipamento uniforme - supostamente fornecido por arsenais do Estado - e foram treinados e preparados para marchar e lutar em sincronia. Mesmo se dispensarmos a representação visual dos exércitos como erros da parte do show, o fato de esses exércitos poderem permanecer no campo mês após mês implica que pelo menos partes significativas dessas forças são efetivamente profissionais e pagas pelo seu serviço, em vez de terem sido formadas em um sistema de vassalagem.
O tamanho dos exércitos também aponta nessa direção. Embora a trajetória exata do crescimento do exército na início do período moderno seja um tanto contestada, o que não é contestado é que os exércitos no início do período moderno eram substancialmente maiores do que os do final da Idade Média. Dos exércitos medievais nos milhares ou nas primeiras dezenas de milhares, os exércitos das grandes potências da Europa passaram às últimas dezenas de milhares nos anos 1500 e depois ultrapassaram bastante os 100.000 em meados do século XVII. Esses exércitos geralmente não estavam concentrados em um só lugar devido a questões de logística, mas a capacidade destrutiva geral do estado aumentara várias vezes.
Assim, enquanto George RR Martin frequentemente apontava para a Guerra das Rosas (1455-1487 - portanto, ressalto, uma guerra moderna, não medieval) como inspiração histórica para Game of Thrones, a escala do conflito e o tamanho dos exércitos mais claramente evocam as guerras dos séculos XVI e XVII, como a Guerra dos Trinta Anos (1618-1648). Como se pode imaginar, exércitos maiores geralmente significam maiores “danos colaterais”, então vamos ver como o período moderno se compara à Idade Média na destrutividade da guerra.
As guerras dos séculos XVI e XVII - especialmente a Guerra dos Trinta Anos - foram chocantemente destrutivas em comparação com o que acontecera antes. Parte da razão para isso foi a natureza dos conflitos: muitas dessas guerras nasceram da Reforma Protestante e foram, portanto, guerras religiosas, colocando protestantes contra os católicos. Nesse tipo de guerra - ao contrário de uma disputa política sobre um trono ou território - a população inimiga se torna alvo de violência por acreditar na coisa "errada". Na Guerra dos Trinta Anos, exércitos católicos destruíram aldeias protestantes e vice-versa, com o objetivo de mudar a composição religiosa da região pela violência.
Mas nem todos os conflitos desse período foram guerras religiosas. Apesar de que as guerras seculares nunca atingiram a carnificina da Guerra dos Trinta Anos, elas ainda eram marcadamente mais destrutivas do que as anteriores. Outra razão para isso foi a melhora dos próprios exércitos - você verá pessoas atribuindo isso à pólvora, mas os mosquetes de tiro lentos não são muito mais destrutivos do que as armas do passado. Mas um exército medieval - como já discutimos - só poderia ter um certo tamanho e só poderia permanecer no campo por um determinado tempo. Mas os novos exércitos permanentes do início do período moderno eram formados por profissionais que podem guerrear o ano todo e eram ainda maiores. Além disso, a Reforma - ao dividir o poder da Igreja - enfraqueceu as próprias normas religiosas que às vezes restringiam a violência (mesmo que fracamente) na Idade Média. A conseqüência foi exércitos mais capazes e mais dispostos a infligir danos à população em geral.
Por fim, o vultoso tamanho desses exércitos também contribuiu para maiores níveis de destrutividade de um modo diferente e inesperado: eles pelejaram contra as limitações derradeiras da logística pré-ferroviária. Enquanto os governos lutavam para pagar, alimentar e equipar esses soldados, os exércitos no campo eram forçados a se abastecerem localmente e a pagar soldados com saque capturado, às custas da população local. Sob essas condições, restringir os soldados famintos de cometer atos de extrema violência para obter comida ou saque tornou-se cada vez mais difícil, beirando o impossível. Os exércitos no campo tornaram-se forças quase elementares de destruição, evoluindo de fazer cerco e batalhar para fazer cerco e destruir a região por qual passassem.
Assim, a Guerra dos Trinta Anos (1618-1648) despovoou grande parte da Alemanha moderna, matando cerca de um quarto de toda a população (mas a carnificina costumava ser muito localizada - algumas áreas estavam efetivamente intocadas, enquanto outras estavam completamente despovoadas). Nos Países Baixos, a Guerra dos Oitenta Anos (1568-1648) criou uma terra de ninguém despovoada onde os dois lados (os exércitos espanhóis e holandeses) se encontraram em um longo impasse defensivo. Os exércitos espanhóis, tendo ido muito tempo sem pagar, também saquearam Antuérpia (1576) - a sede regional do governo espanhol - para recuperar seus atrasos no pagamento por meio de saques, danificando severamente a economia local por décadas e matando milhares de habitantes.
Esse tipo de guerra - menos limitada, com exércitos maiores, mais destrutivos e mais vorazes - está muito mais perto do que vemos em Game of Thrones . Ironicamente, Joffrey sugere (S1E3) construir um exército de estilo moderno e a idéia foi descartada por Cersei . Algum pode pensar, no entanto - considerando-se que Cersei sabe pouco sobre a guerra e não é tão inteligente quanto ela pensa - se Tywin não já havia começado a usar o ouro Lannister para construir o exército de estilo moderno que ele aparentemente já possui.

Conclusões sobre o Medievalismo Militar

A situação militar em Westeros, portanto, não parece se encaixar muito bem na Idade Média européia. Os exércitos de Westerosi não parecem ser limitados a curtos períodos de serviço militar comum nos exércitos medievais, eles são muito maiores do que os exércitos medievais alguma vez foram e são significativamente mais destrutivos. Além disso - e este é um tópico que retomaremos na próxima vez - eles parecem não restringidos pelos limites sociais e religiosos à violência da Idade Média. Não devemos florear demais ​​- esses limites eram frequentemente mais honrados via de exceção do que observados (e eles não se aplicavam a todos igualmente). No entanto, o aumento acentuado da mortalidade militar no período moderno atesta o fato de que esses limites - os limites organizacionais, juntamente com os culturais - resultaram, de fato, em um nível geral de violência mais baixo.
Parece que quase qualquer discussão sobre a Idade Média começa com “este período foi extremamente violento”. E há alguma verdade nisso - comparado ao mundo moderno, os reis e senhores medievais foram muito à guerra. A guerra era uma parte normal da vida. Mas em comparação com o período moderno inicial ou mesmo com a antiguidade clássica, essas guerras costumavam ser relativamente pequenas e seu impacto era limitado. Em comparação com o período moderno (ou seja, nosso período histórico) - bem, conseguimos matar mais pessoas (num sentido absoluto) em um único espasmo horrível de violência que abalou a terra de 1937 a 1945 (cerca de 85 milhões de pessoas) do que provavelmente morreu em todas as guerras medievais europeias combinadas. Violência é relativa. Comparado com a longa paz do Império Romano (27 aC - c. 235 dC; o próprio império durou até cerca de 450 dC no Ocidente (e 1453 dC no leste), mas seus últimos séculos foram mais violentos), de fato, a Idade Média foi bastante violenta. Mas comparado ao que veio depois, a Idade Média teve mais guerra, porém menos morte (e nós nem sequer discutimos a catástrofe humana que foi a descoberta do novo mundo ...).
Isso significa que Martin "falhou" de alguma forma? Não - de modo algum. Novamente, A Song of Ice and Fire não é uma dissertação de história disfarçada, é um romance de fantasia. Martin construiu uma sociedade com suas próprias regras e sistemas e então seguiu essas regras e sistemas sociais até onde elas levam. Em vez disso, o que quero enfatizar é que - no que diz respeito a assuntos militares - os exércitos de Westeros não são muito parecidos com os exércitos da Idade Média européia, apesar das semelhanças entre cavaleiros, armas e armaduras.
Não obstante, observar a diferença entre a Idade Média e Westeros é importante porque reformula um dos temas centrais do cenário. É reconfortante pensar que a violência descontrolada em Westeros é o produto de algo - uma cultura de cavaleiros guerreiros e violência - que não temos mais. Mas o oposto é verdadeiro: a violência fora de controle, do tipo que Westeros possui, é o produto de algo que ainda temos muito: a tremenda capacidade do Estado administrativo moderno para a violência.
Nossos estados administrativos modernos podem fazer coisas maravilhosas - eles constroem estradas e escolas, fornecem cuidados de saúde (às vezes), podem cuidar dos pobres e regular os locais de trabalho. Mas eles também podem produzir quantidades espetaculares e horripilantes de violência. É essa tarefa - a violência, não as escolas ou as estradas - para as quais eles foram projetados e às quais eles permanecem mais aptos. Nós nos esquecemos disso (fingindo que tal violência pertence apenas à HBO e ao passado distante) por nossa conta e risco.
Na próxima vez, veremos como funcionam as normas culturais e religiosas na sociedade Westerosi. A Idade Média na Europa foi, em muitos aspectos, definida por fortes normas culturais e especialmente religiosas. Quanto se parece com Westeros?
submitted by altovaliriano to Valiria [link] [comments]